Duas irmãs gêmeas idênticas tiveram resultados diferentes na avaliação de cotas raciais do concurso da Polícia Civil do Espírito Santo (PC ES), destinado ao cargo de Oficial Investigador de Polícia. Embora ambas se autodeclarem negras, Natália Mendes Ferreira foi considerada inapta na heteroidentificação, enquanto Naiara Mendes Ferreira foi aprovada.
O resultado preliminar, divulgado em 27 de outubro de 2026, surpreendeu as candidatas, que já haviam sido aprovadas em procedimentos semelhantes em outros concursos. Natália apresentou recurso administrativo para tentar reverter a decisão.

Entenda o caso das gêmeas no concurso PC ES
Naturais de Vitória e moradoras de Vila Velha, as irmãs participaram da avaliação presencial em 17 de outubro. Apesar de apresentarem características físicas semelhantes, receberam decisões diferentes das bancas examinadoras.
Segundo Natália, a reprovação foi inesperada, principalmente porque ambas já haviam sido consideradas aptas em avaliações anteriores, incluindo o concurso da Polícia Penal de 2025.
A candidata afirmou estar confiante na revisão do resultado e destacou a semelhança física com a irmã aprovada.
“Além de eu não ter dúvidas de que eu sou uma pessoa negra, tem uma cópia minha lá!”, declarou em entrevista ao g1.
Conforme a lista preliminar, 201 candidatos foram considerados inaptos na heteroidentificação, sendo 200 autodeclarados negros ou pardos e um indígena. Outros 377 foram considerados aptos e 51 não compareceram à avaliação.
Resultado preliminar da heteroidentificação dos candidatos que se declaram negro, pardo ou indígena
Como foi feita a avaliação?
As gêmeas compareceram à avaliação no mesmo dia e horário, mas foram encaminhadas a bancas diferentes: Natália passou pela banca 1 e Naiara pela banca 2.
Segundo o relato das irmãs, ambas estavam sem maquiagem e usavam roupas de tonalidades semelhantes.
O procedimento consistiu na identificação dos candidatos diante de uma câmera, com apresentação de dados pessoais e autodeclaração racial. As avaliações foram conduzidas por comissões de cinco integrantes.
Outro candidato também questiona o resultado
Gilson de Oliveira Faria, de 27 anos, também foi considerado inapto após passar pela mesma banca que avaliou Natália.
O candidato, que já havia sido reconhecido como negro em outro concurso organizado pelo Ibade, relatou surpresa com a decisão e manifestou intenção de recorrer. Segundo ele, a reprovação pode comprometer a classificação de candidatos que disputam as vagas reservadas.
O que é o procedimento de heteroidentificação?
A heteroidentificação é uma avaliação complementar à autodeclaração racial, utilizada para verificar se os candidatos apresentam características físicas compatíveis com as políticas de reserva de vagas.
Em entrevista ao g1, a advogada Jéssica Wanzeller, especialista em direito antidiscriminatório, explicou que a análise considera características fenotípicas, como cor da pele, textura do cabelo e traços faciais, e não a ascendência familiar.
A especialista destacou que a subjetividade é um dos principais desafios desse procedimento. Por isso, ressaltou a importância de bancas diversificadas, avaliadores capacitados e condições adequadas de iluminação e ambiente para garantir a aplicação uniforme dos critérios.
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O que dizem o Ibade e a Polícia Civil?
O Instituto Brasileiro de Apoio e Desenvolvimento Executivo (Ibade), responsável pela organização do concurso, informou ao g1 que as avaliações seguiram as regras do edital, foram realizadas individualmente por bancas de cinco integrantes e registradas em vídeo.
Entretanto, o instituto não esclareceu quais critérios justificaram os resultados diferentes das gêmeas.
O prazo para apresentação de recursos contra o resultado preliminar terminou em 29 de outubro, às 23h59.
Já a Polícia Civil do Espírito Santo informou que a responsabilidade pela etapa de heteroidentificação é exclusiva do Ibade.
Sobre o concurso PC ES
O concurso da PC ES oferece 1.052 vagas para Oficial Investigador de Polícia (OIP), distribuídas da seguinte forma:
- 684 vagas para ampla concorrência
- 210 vagas para candidatos negros
- 105 vagas para pessoas com deficiência
- 53 vagas para candidatos indígenas
A prova objetiva foi aplicada em fevereiro de 2026. Posteriormente, os candidatos passaram por teste de aptidão física, exames de saúde e avaliação psicológica.
A heteroidentificação ocorreu em outubro, paralelamente à investigação social. Conforme o cronograma informado, o resultado final do concurso está previsto para 11 de novembro de 2026.


