cérebro
Início Concursos Cansaço nos estudos: quando a fadiga é apenas rotina e quando merece investigação médica?

Cansaço nos estudos: quando a fadiga é apenas rotina e quando merece investigação médica?

Cansaço e sonolência são comuns nos estudos, mas fadiga persistente pode indicar problemas de saúde que merecem investigação médica

Por Dra. Camille Rebellato Sanches – Médica especialista em Nutrologia, Emagrecimento e Longevidade

Você dorme, mas acorda cansado.

Toma café, começa a estudar e, poucas horas depois, sente que a energia acabou. A concentração diminui, a memória parece pior e tarefas que antes eram simples passam a exigir um esforço muito maior.

Para quem está se preparando para concursos públicos, a explicação mais comum costuma ser automática:

“Estou cansado porque estou estudando demais.”

E, muitas vezes, é exatamente isso.

Uma rotina intensa, noites mal dormidas, estresse prolongado, alimentação inadequada e poucas pausas podem provocar queda importante de energia. No entanto, quando o cansaço persiste mesmo após períodos adequados de descanso, pode ser necessário investigar outras causas.

Anemia, deficiência de ferro ou vitamina B12, alterações da tireoide, distúrbios do sono, uso de determinados medicamentos e questões relacionadas à saúde mental estão entre as possibilidades que podem fazer parte da avaliação médica.

Por isso, existe uma diferença importante entre estar cansado depois de uma semana particularmente difícil e passar semanas funcionando abaixo do seu habitual sem uma explicação clara.

Para quem vive uma preparação de longo prazo, reconhecer essa diferença é importante.

Siga @magistrarcursos
📚 Conteúdos diários, dicas de estudos e novidades sobre concursos jurídicos

Cansaço, fadiga e sonolência são a mesma coisa?

Embora essas palavras sejam usadas como sinônimos no dia a dia, elas podem representar experiências diferentes.

Cansaço costuma aparecer depois de um esforço físico ou mental e pode melhorar com o repouso.

Fadiga é uma sensação mais persistente de falta de energia ou dificuldade para iniciar e manter atividades.

Já a sonolência está relacionada à tendência de adormecer. É aquele sono que aparece durante uma aula, diante do computador, no transporte ou enquanto você tenta resolver questões.

Essa distinção ajuda o médico a entender melhor o que está acontecendo e quais possibilidades precisam ser investigadas. A avaliação da fadiga deve considerar também qualidade do sono, medicamentos, alimentação, saúde mental e outros sintomas.

Segundo a Dra. Camille Rebellato Sanches:

“Antes de pedir exames, precisamos entender exatamente o que a pessoa está sentindo. Dizer ‘estou cansado’ pode significar coisas completamente diferentes de um paciente para outro.”

Quando o cansaço pode ser consequência da rotina de estudos?

Imagine um candidato que passou a semana dormindo cinco horas por noite, trabalhou durante o dia, estudou à noite e ainda realizou um simulado no fim de semana.

Sentir queda de energia nesse contexto não é surpreendente.

O organismo está respondendo a uma sobrecarga.

Alguns sinais indicam que a própria rotina pode estar contribuindo significativamente para o cansaço:

  • privação de sono evidente;
  • aumento recente da carga de estudos;
  • períodos prolongados de estresse;
  • alimentação desorganizada;
  • ausência de pausas e momentos de recuperação;
  • melhora significativa depois de dormir e descansar.

Nessas situações, a solução pode não estar em um novo suplemento ou em uma bateria de exames.

Pode estar em recuperar o sono, reorganizar a rotina e reduzir temporariamente a sobrecarga.

O sinal de alerta aparece quando o descanso deixa de resolver o problema.

Como o acompanhamento médico pode fazer parte da preparação para concursos?

Uma preparação de longo prazo não envolve apenas cronograma, questões e revisões.

Sono, alimentação, atividade física, saúde mental e acompanhamento adequado também podem influenciar a capacidade de sustentar uma rotina de estudos.

É justamente com essa visão mais ampla que o Magistrar prepara novidades para a Mentoria 2027.

Entre os novos benefícios previstos para os alunos está o Acompanhamento Médico, com acesso a consultas com a Dra. Camille Rebellato Sanches, médica especialista em nutrologia e performance.

A ideia não é transformar o concurseiro em um paciente ou fazer da mentoria um serviço médico.

É reconhecer que um corpo saudável também é parte da preparação para performar melhor nos estudos.

“Eu durmo oito horas e continuo exausto”: o sono pode ser o problema?

Dormir muitas horas não significa necessariamente ter um sono de boa qualidade.

Uma pessoa pode passar oito horas na cama e, ainda assim, ter o sono fragmentado ou pouco reparador.

Um exemplo é a apneia obstrutiva do sono, distúrbio que pode provocar interrupções repetidas da respiração durante a noite.

Ronco alto e frequente, pausas respiratórias percebidas por outra pessoa, engasgos durante o sono, cansaço e sonolência durante o dia podem ser sinais que merecem avaliação. A sonolência também pode prejudicar concentração, aprendizado e capacidade de reação.

Segundo a Dra. Camille:

“Não basta perguntar quantas horas você dorme. Precisamos perguntar como você dorme e como você acorda.”

Para o concurseiro, essa diferença é especialmente importante.

Afinal, não adianta reservar oito horas para dormir se o sono não está proporcionando a recuperação necessária.

Deficiência de ferro pode causar cansaço mesmo sem anemia?

Esse é um ponto que costuma gerar dúvidas.

Deficiência de ferro e anemia ferropriva não são exatamente a mesma coisa.

É possível apresentar deficiência de ferro antes de desenvolver anemia, e algumas pessoas podem ter sintomas como fadiga e dificuldade de concentração mesmo com hemoglobina ainda dentro da faixa de referência. A avaliação deve considerar o conjunto de exames e o contexto clínico, e não apenas o hemograma.

Entre as possíveis causas da deficiência de ferro estão ingestão insuficiente, aumento das necessidades do organismo, alterações de absorção e perdas de sangue.

Em mulheres em idade fértil, por exemplo, perdas menstruais importantes podem ser um fator relevante.

Por isso, quando existe suspeita de deficiência de ferro, não basta simplesmente tomar um suplemento por conta própria. É importante investigar se existe deficiência e por que ela está acontecendo.

Vitamina B12 não é simplesmente uma “vitamina para dar energia”

A vitamina B12 participa de processos importantes para a formação das células sanguíneas e o funcionamento do sistema nervoso.

Sua deficiência pode estar associada a fadiga, dificuldade de concentração, alterações cognitivas e manifestações neurológicas, como formigamentos e alterações do equilíbrio. Importante: a ausência de anemia não exclui deficiência de B12.

Alguns fatores podem aumentar o risco de deficiência, incluindo determinadas restrições alimentares, alterações gastrointestinais, cirurgias digestivas e o uso de alguns medicamentos.

Isso não significa, porém, que qualquer pessoa cansada precise tomar B12.

Corrigir uma deficiência identificada é diferente de utilizar vitaminas aleatoriamente na tentativa de aumentar a disposição.

Segundo a Dra. Camille:

“Repor uma deficiência é medicina. Tomar vitaminas aleatoriamente para tentar produzir energia é outra coisa completamente diferente.”

E a vitamina D?

A vitamina D também aparece com frequência nas conversas sobre cansaço e disposição.

Entretanto, encontrar uma alteração em um exame não significa automaticamente que ela seja a explicação para todos os sintomas apresentados.

Assim como acontece com outras vitaminas e nutrientes, a interpretação deve considerar o quadro clínico, os fatores de risco, a alimentação e os demais resultados.

Nem todo estudante cansado precisa de vitamina D.

E nem todo sintoma de fadiga será resolvido simplesmente pela reposição de uma vitamina.

A investigação deve ser individualizada.

Alterações na tireoide também podem causar fadiga?

Sim.

A tireoide produz hormônios que participam da regulação do metabolismo. Alterações na função da glândula podem estar associadas a sintomas como fadiga, sonolência, intolerância ao frio, constipação, alterações de peso e mudanças na pele ou no ciclo menstrual.

Mas existe um cuidado importante:

esses sintomas são inespecíficos.

Uma pessoa cansada não deve concluir, apenas com base nos sintomas, que possui hipotireoidismo.

A avaliação médica é necessária para interpretar os sintomas e definir quais exames são realmente indicados. Alterações tireoidianas são apenas uma das possibilidades consideradas na investigação de fadiga persistente.

E se todos os exames estiverem normais?

Essa situação também pode acontecer.

A fadiga é um sintoma com muitas causas possíveis, e nem sempre uma bateria de exames identifica imediatamente uma alteração laboratorial responsável pelo problema.

Sono insuficiente, estresse prolongado, ansiedade, depressão, sobrecarga profissional, medicamentos, infecções recentes e doenças crônicas podem influenciar a energia e o desempenho.

Por isso, uma investigação adequada não deve olhar apenas para o resultado de exames.

É preciso considerar a história clínica, o sono, a alimentação, os medicamentos utilizados, a saúde mental, os hábitos e os demais sintomas.

Um exame normal não significa que o cansaço “não existe”.

Significa que o resultado precisa ser interpretado dentro do contexto.

Preciso fazer um “check-up completo” porque estou cansado?

Não necessariamente.

Esse é um dos erros mais comuns quando alguém enfrenta fadiga persistente.

A pessoa começa a pesquisar na internet e decide solicitar uma grande quantidade de exames: vitaminas, hormônios, minerais, marcadores inflamatórios, cortisol e diversos outros testes.

A lógica da investigação médica é diferente.

Primeiro, vem a história clínica.

Depois, a avaliação física.

A partir das informações encontradas, o profissional formula hipóteses e define quais exames podem ajudar a confirmá-las ou descartá-las.

A investigação indiscriminada pode produzir resultados incidentais, gerar ansiedade e levar a novos exames ou tratamentos sem necessidade. A literatura recomenda que a solicitação de exames seja direcionada pelo contexto clínico.

Como explica a Dra. Camille:

“Mais exames não significam necessariamente uma investigação melhor. O melhor exame é aquele solicitado porque existe uma pergunta clínica que ele pode ajudar a responder.”

Ferritina: quanto maior, melhor?

Não.

A ferritina é um dos marcadores utilizados para avaliar os estoques de ferro, mas sua interpretação não deve ser feita isoladamente.

Ela também pode sofrer influência de processos inflamatórios. Por isso, um único número não deve ser utilizado, sozinho, para confirmar ou excluir deficiência de ferro em todas as situações. A avaliação pode exigir outros marcadores e deve considerar o quadro clínico.

Esse é um bom exemplo de por que comparar resultados laboratoriais com “valores ideais” encontrados aleatoriamente na internet pode ser enganoso.

O objetivo de um exame não é simplesmente encontrar um número considerado perfeito. É responder a uma pergunta clínica.

O mesmo vale para as vitaminas

Existe uma tendência de transformar qualquer resultado laboratorial em uma busca pelo chamado “nível ótimo”.

Mas a medicina não funciona apenas com números isolados.

O significado de um resultado pode variar de acordo com:

  • idade;
  • sintomas;
  • alimentação;
  • medicamentos;
  • doenças associadas;
  • condições de absorção;
  • gestação, quando aplicável;
  • resultados de outros exames.

Por isso, tratar um número sem avaliar a pessoa por trás dele pode levar tanto a tratamentos desnecessários quanto a uma investigação incompleta.

Quando procurar avaliação médica por causa do cansaço?

Não existe um período único que determine quando toda pessoa cansada precisa procurar atendimento.

Mas a avaliação médica merece ser considerada quando o cansaço:

  • persiste por semanas sem uma explicação clara;
  • não melhora mesmo após sono e descanso adequados;
  • é muito maior do que o esperado para a rotina;
  • começa a comprometer estudos, trabalho ou atividades habituais;
  • aparece acompanhado de outros sintomas.

Também é importante procurar avaliação diante de sinais como perda de peso não intencional, febre persistente, sangramentos, falta de ar, palpitações importantes, alterações neurológicas ou piora progressiva.

Nessas situações, o objetivo não deve ser simplesmente “ganhar energia para estudar”.

É entender o que está acontecendo com a saúde.

Não tente tratar o cansaço apenas com estimulantes

Quando a energia diminui, a solução mais rápida parece óbvia:

mais café, energético ou algum suplemento.

O problema é que aumentar a sensação de alerta não significa necessariamente resolver a causa da fadiga.

Se o problema estiver relacionado à privação de sono, deficiência nutricional, distúrbio do sono, condição clínica ou outro fator, simplesmente mascarar a sonolência pode não resolver a situação.

Além disso, o consumo de estimulantes próximo ao horário de dormir pode prejudicar o sono e contribuir para a manutenção de um ciclo de cansaço.

O corpo não é um obstáculo ao seu cronograma de estudos

Para quem está muito concentrado em uma aprovação, sintomas físicos podem começar a ser vistos como inconvenientes.

Algo que precisa ser “empurrado” até depois da prova.

Mas existe um limite para essa lógica.

O cérebro que você utiliza para estudar faz parte do mesmo organismo que está tentando sinalizar que alguma coisa pode não estar bem.

Ouvir esses sinais não significa abandonar a disciplina.

Significa também ter disciplina para cuidar da própria saúde.

Conclusão: produtividade não deve ser construída às custas da saúde

Sentir cansaço depois de um período intenso de estudos é humano.

Sentir-se constantemente exausto, porém, não deve ser automaticamente considerado normal.

A fadiga pode estar relacionada a hábitos inadequados, privação de sono, deficiência de ferro ou vitamina B12, distúrbios do sono, alterações da tireoide, questões emocionais, medicamentos e diversas outras condições.

Por isso, o caminho não é se autodiagnosticar.

Também não é solicitar todos os exames disponíveis.

É observar, contextualizar e procurar avaliação profissional quando necessário.

Talvez você realmente precise descansar mais.

Talvez precise melhorar o sono.

Talvez exista uma deficiência a ser corrigida.

Ou talvez outro fator esteja interferindo no seu rendimento.

O importante é entender que produtividade não deve ser construída às custas de sintomas persistentes.

A aprovação é uma meta importante.

Mas chegar até ela com saúde também precisa fazer parte do plano.

Antes de culpar a falta de disciplina, pergunte-se:

  • Meu sono realmente está adequado?
  • Acordo descansado ou já começo o dia exausto?
  • Esse cansaço melhora quando descanso?
  • Tenho apresentado falta de ar, palpitações, tonturas ou dores de cabeça frequentes?
  • Minha alimentação mudou significativamente?
  • Tenho sangramentos menstruais intensos ou outras perdas de sangue?
  • Uso alguma medicação que possa aumentar a sonolência?
  • Meu humor ou nível de ansiedade mudou?
  • Alguém já percebeu que ronco muito ou paro de respirar durante o sono?

Essas informações podem ser muito mais úteis em uma consulta do que simplesmente chegar ao consultório pedindo uma lista de exames.

Mito ou verdade?

“Se meu hemograma está normal, não posso ter deficiência de ferro.”

❌ Mito. A deficiência de ferro pode ocorrer mesmo sem anemia. A avaliação deve considerar ferritina, outros marcadores quando indicados e o contexto clínico.

“Deficiência de vitamina B12 pode causar dificuldade de concentração e sintomas neurológicos.”

✅ Verdade. A deficiência pode estar associada a fadiga, dificuldades cognitivas e manifestações neurológicas, inclusive na ausência de anemia.

“Dormir oito horas significa necessariamente ter um sono adequado.”

❌ Mito. A duração do sono não garante qualidade. Distúrbios como a apneia podem fragmentar o sono e provocar cansaço e sonolência durante o dia.

“Quanto mais exames eu fizer, maior a chance de descobrir a causa.”

❌ Mito. A investigação deve ser direcionada pela história clínica, avaliação física e hipóteses diagnósticas. Exames indiscriminados podem produzir achados incidentais e investigações desnecessárias.

Próxima matéria: como construir uma rotina sustentável até a aprovação

Depois de falar sobre alimentação, sono, ansiedade, suplementos, atividade física e fadiga, o próximo passo é juntar todas essas peças.

Na próxima matéria, vamos mostrar como organizar uma rotina realmente sustentável até a aprovação, considerando estudo, sono, alimentação, exercício e descanso.

Porque, para quem estuda para concursos públicos, o maior desafio muitas vezes não é produzir muito durante uma semana.

É continuar produzindo bem quando a preparação se prolonga.

Leia também: Exercício físico ajuda a estudar melhor? O que acontece no cérebro quando movimentamos o corpo

Este conteúdo foi útil?

Compartilhe este conteúdo